segunda-feira, 22 de junho de 2009

closeups

Estou pronta para os meus close-ups, Sr. Mauro
Existem muitos motivos para Carmen Santos ser considerada uma das mulheres mais importantes da história do cinema brasileiro, além de um nome vital para o período silencioso no Brasil. Pra mim, no entanto, um motivo já bastava: os seus close-ups em “Sangue Mineiro”.

Bela Balázs, teórico húngaro da primeira metade do século XX, teorizou sobre a questão deste no cinema mudo. O close-up que suspende o tempo, interrompe por um momento o fluxo de uma narrativa, se aproxima do ser humano, do corpo, do rosto. Aproximar a câmera e revelar o sentimento e o pensamento, o que fica além do físico, do espaço e do tempo – olhar direcionado à alma humana. Para trazer à superfície o que é mais profundo. Nessa última sequência de “Sangue Mineiro”, toda delicadeza, ambigüidade e expressividade do close-up da Carmen Santos.



O primeiro plano se dá na dimensão da fisionomia, a forma em que o rosto se apresenta. Não há mais nada, só o mundo em um rosto. E é nesse primeiro plano de um rosto que se constitui o monólogo silencioso, no qual pequenos gestos e mudanças de expressão apontam para um fala mais forte do que a própria palavra. A exemplificação disso, mais uma vez, no brilhante e transformador close-up de Carmen dirigida por Humberto Mauro e filmada por Edgar Brasil.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfGpZuHB9EEcQm3VAhQ05tu2amDkbyPbp0THzvQaqUYOpqFQ1Dz6cs17oQBI4LqARVkm9NF_pobHWGan9Jz_GyVIt5jLjtuFtx2EEBQIlFRwvpi6KBQgGIv0-EW1SooMqaIG0hK1-l3246/s320/carmensantosclose4.jpg

segunda-feira, 16 de março de 2009

Os Filmes de Escola

O que não falta nas Vídeos Locadoras são filmes sobre Escola. Não raro os vemos exibição nas boas Salas de Cinema, menos raros ainda na programação da TV.
Primeira Cena: Um Homem passando a mão na nuca, como que para aliviar o peso de algo que comprime todo o seu corpo. Ele se refaz, e caminha em direção à Classe de Aula. 
Assim começa o filme: Entre os Muros da Escola (Dir, .....Franca, 200  ), filme que mostra o difícil cotidiano de um professor de língua francesa e sua classe de sétima série  numa escola pública da periferia de Paris.
É inevitável para quem, professor como eu, ir ao Cinema para se ver na tela. "Ouçam a longa história de meus males, e curem sua dor com minha dor; que grandes mágoas podem curar mágoas." diz Camões. Mas não é Mágoa o peso na vida deste professor, como veremos nos 120 minutos seguintes do filme que tenta condensar um ano letivo desta Classe. É um misto de obstinação, desafio, dedicação, frustração. São estes sentimentos que emergem ao longo do filme, que emergem da relação professor-alunos desta Classe, que emerge também das salas de aula de nossas escolas.
A maior fonte dos problemas desta escola em particular é a dificuldade em lidar com a diversidade da "clientela" - alunos filhos de migrantes de ex-colônias francesas, alguns filhos de orientais que vivem ilegalmente na França. Cada um de uma parte do continente, franceses de ex-colonias que são considerados menos franceses que os da Metrópole. Mas todos com algo em comum: a dificuldade em (ter) que se integrar à Metrópole. Ao fato de todos ali serem de alguma maneira os deserdados da terra, aqueles que sofrem com as "Consequências Humanas da Globalização", do Colonialismo do século XIX e XX.
A Escola se torna, assim, o Locus, o ponto de encontro desse embrólio. Uma pergunta percorre todo o filme: Qual o sentido da escola? Pra que ela serve? O que espera as sociedades modernas, o país, os pais, os governos dela? A penúltima sequencia do filme dá uma resposta à isso.
E é nisso que a escola do filme e as nossas escolas daqui (pelo menos as da Rede Estadual de São Paulo) se encontram - a angústia de todos os que nela estão inseridos de dar-lhe um Sentido e uma Finalidade neste Século XXI que ainda trás os problemas e conflitos de séculos anteriores em sua estrutura ao mesmo tempo que é o século sonhado pela ficção científica.
A realidade mostrada pelo filme é extremamente angustiante. Porém, mais ainda é pensar que nossa realidade tem as mesmas questões, guardando-se as especificidades históricas, em dimensões dezenas de vezes maior e mais sérias.
Pra começar: o filme, assim como o livro, tratam do ano letivo de apenas uma classe em particular. Sem submestimar a complexidade desta classe - fruto dos anos de colonialismo francês, mas se for pra comparar...vamos lá: Lá não há nenhum caso de envolvimento com o tráfico de drogas, a classe não é superlotada (tem cerca de vinte alunos) e o stress que os professores sofrem diz respeito aos conflitos somente desta sala, enquanto por aqui a gente tem até quinze. Como disse anteriormente, comparações podem ser feitas, sobretudo porque filme e livro são obras verossímeis, mas tem que ser comparados numa dimensão muito diferente.